galhos raízes

galhos raízes

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

LACRIMOSA


Myrta Kras

conjuras o pecado
conclamas o perdão
abafas a solidão
liberas o aprisionado

a saudade alimentas
és clemente e impiedosa
tuas águas são lenitivo
companheiras silenciosas

gosto doce e suave
qual frescor da manhã
não há tristeza que resista
nem felicidade que não se incline
ao aflito tornar sublime

são rios que lavam o corpo
de memórias e ausências
de presenças e vitórias
denúncias, renúncias

transbordas quando o desejo se faz mais que o querer

primeira expressão
genuína libertação
inesgotável fonte que jorra
és companhia de loucas
de tristes
de fortes
das amadas ou escondidas
entre os que ficam 
e os que esperam

agora chora
chora teu pranto
que é meu
é teu
é de todos
é de ninguém


 janeiro/2011

AMIGO

Não te faças só ,
Homem isolado.
Te faze conjunto,
Homem circundado.
Não partas corações,
Repartindo mentiras.
Junta as emoções,
Prazeres de uma vida.
Caso te enganem ,
Critiquem ou sumam
Não morras triste
Nem deixa que te vençam .
Não sofras por lutar sozinho
Longo e largo é mesmo o
caminho.
Se não encontrares companhia
pra seguir
Segue sozinho,
Mas não esquece de sorrir.


Eni Araujo

PROFESSOR

                 
NÃO TENHO MARCAS NEM AMARRAS,
NEM TAMPOUCO MEDO DE ERRAR.
NÃO TENTEM CALAR MEUS INSTINTOS,
A QUEM NÃO DESISTE DE LUTAR.

NÃO NASCI PARA SER OMISSA,
NEM PARA FREIOS NO PENSAR.
NASCI PARA SER LIVRE,
NO MEU MODO DE SONHAR.

SOU TÃO PROFESSORA COMO AS DEMAIS,
QUERO QUE TODOS ACREDITEM.
QUE NÃO ME JULGO A MELHOR
PORÉM, MINHA EXPERIÊNCIA ME DIZ
QUE SER UM BOA PROFESSORA
FAZ DE MIM UMA ETERNA APRENDIZ.           
                                                                                     
JANE MAIRA PACHECO CEZAR
  Sant"Ana do Livramento.RS

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Poesia


            Criança e Cidadania

      Lugar de criança é na escola
E não na rua pedindo esmola.
Lugar de criança é na escola
E não na rua cheirando cola.

Criança deve receber carinho e proteção
Dos pais e de toda a população.
Criança tem direito a diversão e alimentação
E ninguém neste mundo deve esquecer esta obrigação!

            Toda criança deve estudar para aprender
            E dividir com mais gente o que vai receber
            Ser tratada com respeito, ter o direito ao lazer
            É o que desejamos com prazer.

            Os direitos da criança devem ser atendidos  e cumpridos 
            pela sociedade
            Pois, a criança tem direito à dignidade e à liberdade.

            Tem direito à informação
            Pois, são a semente do futuro cidadão!

Danielli Brondani Severo - Rosário do Sul. 


sábado, 22 de janeiro de 2011

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Nome completo:  Salvador Domingo Felipe JacintoDali i Domènech.
Nascimento:         às 8h 45 da manhã de 11 de maio de 1904 Figueres,Catalunha Espanha
Faleceu:  No dia 23 de Janeiro de 1989 . Figueres,Catalunha Espanha
Ocupação:   Pintor, desenhista , fotógrafo e escultor
Escola /Tradição: Escola de Belas Artes de São Fernando, Madri.
Movimento estético      Cubismo
                                    Dadaísmo
                                    Surrealismo
Título:    1º Marques de Dali de Púbol.
Principais trabalhos:        A persistência de Memória
                                      Sofá- lábios de Mãe West
                                      A tentação de Santo Antônio


Salvador Domingo Felipe Jacinto Dali i Domènech, conhecido apenas como Salvador Dali, foi um importante pintor catalão, conhecido pelo seu trabalho Surrealista.
O trabalho de Dali chama a atenção pela incrível combinação de imagens bizarras, oníricas, com excelente qualidade plástica. O seu trabalho mais conhecido, A persistência da Memória, foi concluído em 1931.
Salvador Dali teve também trabalhos artísticos no cinema, escultura e fotografia. Ele colaborou com a Walt Disney, no curta de animação Destino, que foi lançado postumamente em 2003 e, ao lado de Alfred Hitchcock filme Spellbound. Também foi autos de poemas dentro da mesma linha Surrealista. Dali insistiu em " linhagem árabe ", alegando o que seus antepassados eram descente de mouros que ocuparam o sul da Espanha por quase 800 anos (711 a1492), e atribui o isso o seu amor de tudo o que é excessivo e dourado, sua paixão pelo luxo e o seu amor oriental por roupas. Tinha uma reconhecida tendência a atitudes e realizações extravagantes, destinadas a chamar a atenção, o que por vezes aborrecia aqueles que apreciavam a sua arte. Ao mesmo tempo que incomodava os seus criticos,ja que sua forma de estar teatral e excêntrico  tendia a eclipsar o seu trabalho artístico.Em 1916, durante suas férias de verão em cadaquès, passadas com a família de Ramon Pichot descobri a pintura impressionista. Seu pai organizou umaexposição dos desenhos a Carvão em sua casa de família. Sua primeira exposição pública ocorreu no Teatro Municipal em Figueres em 1919. Em outubro de 1921. Dali foi viver em Madri, onde estudou na academiade Artes de São Fernando. Dali chamava a atenção nas ruas como um excêntrico cabelo comprido, um grande laço no pescoço, calças até ao joelho, meias altas e casacos compridos.O que lhe granjeou maior atenção por parte dos colegas foram os quadros onde fez experiências com o cubismo(embora na época destes primeiros trabalhos ele provavelmente não compredesse por completo o movimento cubista, dado que tudo o que sabia dessa arte provinha de alguns de revistas e de um catálogo que Ramon Pichot lhe oferecera , vista não haver artísticas cubista neste tempo, em madri. Fez experiências com Dadaísmo, que provavelmente influênciou todo o seu trabalho.Dali foi expulso da Academia em 1926, pouco tempo depois dos exames finais, em que declarou que ninguém na academia era suficientemente competente para avaliar. Seu dominio de competências na pintura está bem documentada, nese tempo, na sua impecavel e realista pintura"Cesto de Pão", 1926. Em 1924 o ainda desconhecido Salvador Dali ilustrava pela primera vez um livro, o poema grego"les bruixes de Llres"(As bruxasde Llres").Na política desempenhou um papel significativo na sua emergência como um artísta. Em sua juventude Dali abraçou por um tempo tanto anarquismo como o comunismo. Em sue livro,Dali, em 1979, declara-se anarquista e monarquista.Dali explorou intensamente o Simbolismo em seu trabalho. Por exemplo, a marca dos relógios fundidos que aparecem inicialmente em A persistência da Memória.O elefante é também uma imagem recorrente nas obras de Dali. O ovo é outra imagem comum nas obras de Dali, oqual expressa a ideal pré-natal. Diversos animais aparecem em todo o seu trabalho: formigas remontam à morte, decadência e o imenso desejosexual, o caramujo relaciona-se com a cabeça humana. Esta ideia partiu de quando a vistou em caramujoem cima de uma bicicleta, perto da casadeFreud, se conheceram; e gafanhoto são um simbolos de desperdício e de medo.Surrealimo irá pelo menos, ter servido para dar prova que a experimentação total da esterilidade e das tentativas de automatizações terem ido longe demais e deterem conduzido a um sistema totaliário...Hoje, a preguiça e a total falta de técnica chegaram ao seu paraxismo no significado. 
             

Foto de Salvador Dali



(1904 - 1989)

PRINCIPAIS OBRAS DE SALVADOR DALI


1922 - Cabaret Scene e Night Walking Dreams
1925 - Large Harlequin and Small Bottle of Rum
1926 - Basket of Bread e Girl from Figueres
1927 - Composition With Three Figures e Than Blood
1929 - O Grande Masturbador
1929 - Os Primeiros Dias da Primavera
1931 - A Persistência da Memória
1931 - A Velhice de Guilherme Tell
1932 - O Espectro do Sex Appeal,
1932 - O Nascimento dos Desejos Líquidos
1932 - Pão-antropomorfo catalão
1933 - Gala Com Duas Costeletas de Carneiro em Equilíbrio Sobre o Seu Ombro
1936 - Canibalismo de Outono
1936 - Construção Mole com Feijões Cozidos
1938 - España 1938
1937 - Metamorfose de Narciso
1937 - Girafa em Chamas
1940 - A Face da Guerra
1943 - Poesia das Américas
1944 - Galarina e Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha ao Redor de Uma Romã um Segundo Antes de Acordar
1945 - A Cesta do Pão
1946 - A Tentação de Santo Antônio
1949 - Leda Atômica
1949 - Madona de Portlligat.
1951 - Cristo de São João da Cruz
1954 - Crucificação ("Corpus Hypercubus")
1956 - Natureza-Morta Viva
1958 - Rosa Meditativa
1959 - A Descoberta da América por Cristóvão Colombo
1970 - Toureiro Alucinógeno
1972 - La Toile Daligram
1976 - Gala Contemplando o Mar
1983 - The Swallow's Tail. 

FONTE DE LEITURA PESQUISA:


Obs.: Os dados acima relacionados foram retirados do site http://www.google.com.br/


domingo, 16 de janeiro de 2011

Moça bonita

Moça bonita da pele macia
Vê o mar triste e o aprecia!

Moça bonita que vê a vida passar despercebida
Olha o horizonte  distraída!

Às vezes, a moça bonita está a cantar
Olhando para as águas do mar!

Moça bonita tem um bom coração
Mas ninguém lhe dá atenção
E ela, se enche de emoção!

Moça bonita do cabelo cacheado
É triste seu pensamento,
Mas ela tem um olhar encantado
Por que tem sentimento!

Moça bonita pensa sozinha
Mas, quer a sua companhia!

Moça bonita olha pela janela,
E faz-se encantar mais por ela!

Moça na Janela - Salvador Dali

"Traduzir-se"

                       A ARTE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outa parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, podera:
outra parte delira.

Uma parte mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é so vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte-
será arte?      
                                             Ferreira Gullar, "Traduzir-se"
Eni Araujo

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

 Diário de um Fronteiriço
 
Permisso... paysano!
Que eu venho judiado.
O sol na moleira,
a vida campeira
batendo os “costado”.
Permisso... paysano!
Pra um mate cevado.
Que eu ando na estrada
co’a vida encilhada,
tocando o cavalo.
Sou da fronteira...
me pilcho a capricho.
Potrada é de lei,
da lida que eu sei,
aperto o serviço...
Meio gente, meio bicho...
Ninguém me maneia
...“loco das idéia”,
sou duro de queixo.
Um trago de canha,
os amigos de fé,
o pinho afinado...
tocando milongas
e algum chamamé.
Com a alma gaúcha
e um sonho dos “bueno”
eu guardo a querência...
...a vida anda braba,
e só mete a cara
quem tem a vivência.
Ah! Livramento me espera...
num finzito de tarde,
um olhar de saudade
a mirar da janela...
Lá...onde o xucro se amansa!
Na ânsia do abraço
eu apresso o passo
pra matear com ela.


...Nosso jeito de ser, de ver, de viver !
...Sant' Ana quem te conhece, não te esquece, TE AMA !
...Identidade fronteiriça, é unica, é contagiante, é ENTERNA !
                                 Jane Maira .

 Cerro de Palomas , o cartão postal de Sant' Ana do Livramento . (Patrimônio natural)
 Duas bandeiras, dois países, uma fronteira, uma identidade . FRONTERIÇA

Uma linha divisória, que não divide apenas UNE !
A imagem da loucura

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A Pitonisa - intertexto com base na Crônica "A Cartomante" de Machado de Assis


A PITONISA

Aprendera ainda criança. Não lembrava quando. Talvez nem tenha realmente aprendido, talvez fosse apenas um dom de nascença.
O fato era que essa habilidade com o tempo se aprimorara.
Desde que sua memória lhe acompanhava, em seus momentos de isolada e fantástica infância, conseguia perceber a história de um sonho ou de uma desilusão tão logo postava o foco da atenção sobre o mundo que a cercava.
Não era um mundo pequeno, esse. Na cidade onde nascera, era muita a gente que ali vivia.
Mas em geral eram sonhos comuns. Envolviam realização ou a frustração de desejos míseros, como a satisfação de carências materiais ou emocionais: amores perdidos, rivalidades profissionais, disputas e traições. Nada mais humano!
Poucas vezes vislumbrara desejos mais distintos, mais grandiloquentes ou mesmo altruístas. Não. Em geral era aquilo mesmo. A obviedade humana sempre a incomodara de uma maneira muito específica. Era um alfinetar silencioso, permanentemente presente, pulsando durante cada inalação, pedindo sempre mais espaço para se expandir, mas que não chegava a causar dor.
Nada parecia calar esse silêncio atordoante, essa diferença. Ah, não! Havia momentos em que sentia-se ordinariamente pertencente ao mundo dos comuns. Na verdade, dois momentos. O primeiro, mais intenso e mais raro, era quando podia sentar-se à beira mar em uma tarde ensolarada de inverno, daquelas em que o sol teima em tentar alcançar o solo e irradiar sua luz em espelho sobre as águas marítimas, deixando o ar mais límpido, mais puro, mais permeável aos odores. Mantralizando uma respiração impregnada desses aromas, ali ela se sentia realmente grata por essa acurada percepção da vida. Mas como são raros os momentos de pureza invernal...
A outra situação de identidade coletiva que lhe assomava era quando interpretava.
Não, ela não era atriz, ou pelo menos, não o era sabidamente por todos. Sua aura de mistério, habilmente construída ao longo de muito estudo e ensaio fazia da atmosfera de sua saleta de consultas um verdadeiro templo de oráculos desde sempre presentes na imaginação de qualquer um que buscasse soluções mágicas para a vida.
O ar abafado, carregado de veludo e velas, incenso e pedras tornava o misticismo uma ferramenta obrigatória para incutir nos consulentes as palavras que queriam ouvir. Essa magia tinha de estar presente quando ela focava a atenção no cliente, buscando nos recônditos desejos qualquer sinal que sugerisse o caminho a trilhar na busca pelas palavras desejosas e carregadas de gratidão. Nesse caso, a gratidão tilintava em mais e mais moedas.
Mas não era a riqueza que a motivava. Era o poder. O poder de se sentir capaz de gerar felicidade ou alento, de provocar o movimento, de decidir a rota pelo qual essa ou aquela desnorteada alma ia buscar. O poder da escolha, da decisão, o poder de fazer acreditar que era capaz de desvendar o futuro.
Se bem era um diferencial, o que por si só já seria um paradoxo na busca de seu próprio alento de humanidade, essa sensação de poder dava uma finalidade para seu dom. Uma finalidade que ela nunca houvera pensado se era inócua ou pérfida.
Até aquela tarde de maio, ela jamais houvera pensado no quanto o poder do conhecimento da verdade atribui-nos uma responsabilidade que nem sempre estamos dispostos a arcar.
Mas não foi em maio que tudo começou. Devia ter sido em outubro do ano anterior. E se não fora o mau fadado horário de verão, que desorganizava todo seu sistema biológico de adaptação social, ela possivelmente teria percebido os sinais bem a tempo de demovê-los dos atos funestos que se seguiriam até o trágico desfecho.

2
Ela veio primeiro. Moça graciosa e com certo maneirismo, um jeitinho ingênuo e de fácil convencimento. Bem vestida, com roupas de corte moderno e pouco comum naquelas paragens. Parecia querer aparentar menos idade da que realmente possuía. Um tipinho comum, com inteligência comum e desejos comuns. Chegou com aquele ar furtivo, como alguém que tenta se esgueirar pelas sombras alheias, uma pretensa calma que denuncia o mais vigoroso dos vícios: a volúpia, a luxúria, o inescrupuloso desejo da traição. Veio cedo, tão cedo que as garrafas lácteas ainda jaziam às portas.
Do pouco que viu, graças a noite de sono precocemente interrompida, aquela expert nos assuntos humanos julgou perceber nos suspiros incontidos e na sofreguidão do olhar a inequívoca marca da paixão juvenil, ainda que um pouco tardia. Um breve toque nas mãos e o esperado suor frio dos que temem ser descobertos. Não, ela não se equivocara. Ali estava uma jovem desejosa de encontrar a certeza do amor não correspondido, não consumado, ou não revelado.
Presa fácil, a jovem consulente foi logo confirmando com detalhes diante das primeiras sugestões ditadas pela esfinge machadiana, ade acordo à prática baseada no velho axioma por ela transformado: “decifro-te e devoro-te”.
Causa simples, rota comum, facilmente construída e apontada, para um tal serzinho supersticioso. “Você ama alguém e tem medo de que este alguém a esqueça.” Disse a falsa velha sábia. “Ele a ama e a quer, enfrentará tudo e todos para estar junto de si.”
Ah, como é leve a alma humana quando se quer deixar levar...de pouco valeu esta consulta, pois que esse espírito era dócil e facilmente conduzido pelas vinhas da obviedade.
Os espíritos mais rebeldes, mais críticos, esses sim são as conquistas mais difíceis. Esses sim valem o esforço, pela inconstância entre a dúvida, esperança e relutância em acreditar. A eles a pitonisa creditava o benefício da dúvida. Contudo, a graciosa e cálida criatura não merecia tais empenhos, e foi brevemente esquecida. Houvera ela dormido o tanto quanto lhe aprouvera, teria percebido por trás dos gestos fáceis e das faces rubras aquele não-sei-quê que subjaz por trás do não dito, aquele ar de pecado e devassidão que somente as mais lascivas buscam esconder. Ah sim, a moça não era de todo desinteressante, mas à pitonisa se lhe escapou por entre os olhos. Ledo engano, culposa falta e domínio mau direcionado. Mas isso ela não saberia antes de decorridos mais seis meses.

3
           Afoito, assustado, acuado...As batidas na porta denunciavam que o sujeito atrás da porta encontrava-se deveras desesperado. Hummmm, esse era o tipo de conquista mais prazeroso, raras são as oportunidades em que os desesperados incrédulos vinham bater a sua porta. Mas como ele se denunciou? Teria sido o cabelo em desalinho, as roupas um tanto amarrotadas, o estilo de trajar-se? Não, era algo mais. Um olhar paralisado pelo medo, mas ainda assim prescrutinador. Não, ela não se enganava nunca quanto a um tipo. O sujeito por certo sofria de amor, mas não fora isso que o trouxera até ali. Dívidas? A julgar pelo semblante carregado, os ombros contraídos e o olhar em constante movimento, a maestria lhe sugeriu que o rapaz estava com medo de algo muito poderoso. Tão logo ele postara-se a sua frente, a personagem italiana por ela criado veio a tona e lançou as primeiras sílabas

            - O senhor tem um grande susto...

            A cabeça balançante a sua frente era o sinal de que mais uma vez não errara em sua observação do comportamento alheio.

           - E quer saber se lhe acontecerá alguma cousa ou não...

A hesitação que margeava pelos olhos do rapaz deu lugar à excitação, e, tal qual o sol que se faz aparecer em brechas por entre as nuvens, não se viam mais apenas sombras, mas sim raios esperançosos de felicidade.
A entrevista durou o tempo suficiente para que a pitonisa se deixasse enlevar pelo doce sabor da vitória. Mais uma vez o poder exalava seus odores sutis, preenchendo com suave vitalidade o desejo de estar no mundo dos homens, ainda que menos incautos, cegos e imobilizados por abrirem mão de seu próprio poder de decisão e escolha.
Sim, esse discernimento proporcionava-lhe um conhecimento sobre o mundo das cousas e das gentes ao que muitos chamariam de premonição, magia, bruxaria ou mesmo satanismo.
Porém, era a consciência de sua condição que lhe proporcionava uma sensação de extrema liberdade e satisfação.
Nunca ela gozara de qualquer arrependimento, nem mesmo quando, por entre os vincos do pensamento se lhe assomavam imagens de uma consciência fantasmagoricamente pesada, jamais ela pudera imaginar os sentimentos que viria a sentir, durante o dia que ainda não findara.
Ao frenesi causado por mais uma conquista seguira-se o abalo mais profundo e trevoso de que um ser humano possa ser capaz de aguentar. Até então, tal qual um Raskólnikov, ela acreditava estar acima dos sentimentos de culpa, já que estes eram produto de uma sociedade hipócrita e coercitiva. Não, um espírito livre não se deixaria levar por sentimentos tais. Mas, tal qual o anti-herói dostoyevskiano, a notícia do duplo homicídio passional, estampando em primeira página dos jornais as imagens dos amantes traidores-traídos a deixou paralisada em um interregno que não durou por mais do que poucos segundos, mas que se fez presente até o fim de seus dias, atormentando-a como o fantasma silencioso, uma sombra que se alimentava de sua própria dor de culpa.
Um crime sem expiação, sem castigo, a não ser a corrosiva sensação de um prometeu acorrentado no próprio orgulho, embebido na vaidade dos presunçosos, incapaz de assumir que na condição humana não há lugar para a perfeição, somente para o perdão.

A Cartomante - Machado de Assis



HAMLET observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que
sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao
moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela,
por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia
por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que
fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe
dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora
gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as
cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você
me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua
causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe
queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso,
quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois,
repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela
podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa
ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que
havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não
acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que
mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as
ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um
arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos
desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e
ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os
ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação
total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não
possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque
negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do
mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser
amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele,
correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de
sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos,
onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das
Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da
Guarda Velha, olhando de passagcm para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação
das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela
seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a
vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo
preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No
princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama
formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado.
Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como
meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras.
Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não
desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos,
olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que
ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis.
Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher,
enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a
ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de
alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a
mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes
amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita
tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que
gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase
uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o
que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam
os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as
damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser
agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os
olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os
consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas.
Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente e
de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então
que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do
bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo
menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez
passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo.
Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.
Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma
serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos
num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e
subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a
batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o
sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados,
pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada
mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A
confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava
imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve
medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de
Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma
paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-
se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso
um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do
marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante
para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo.
Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-
a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu
mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser
advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião
de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento:
— a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse
é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse
ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que
era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das
cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se
sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao
outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à
casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de
algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses
era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se,
sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se
corresponderem , em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de
Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de
meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural
chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a
letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas
essas cousas com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com
os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e
lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo
de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha
medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de
recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar
algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem
ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez
mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa
que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma
suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto
fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as
palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas, ou então, — o que era
ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela.
"Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela
voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê?
Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto.
Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo.
Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando
que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois
rejeitava a idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção
do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou
seguir a trote largo.
"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..."
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo
voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da
Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma
carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No
fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi,
ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele
desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando
todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua.
Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era
grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns
fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O
cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele
respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois
fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao
longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e
tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a ponco moveu outra vez as asas,
mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens,
safando a carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos,
pensava em outras cousas: mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as
palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia.
A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar . Camilo achou-se
diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de
tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos
extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe
dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia... " Que
perdia ele, se... ?
Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e
rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus
comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não, viu nem sentiu nada.
Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era
tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele
tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante.
Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por
uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma
salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos.
Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do
que destruía o prestígio.
A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com
as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no
rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e
enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de
rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana,
morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas
sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande
susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma cousa ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra
vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas
descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas. três vezes;
depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-
lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro;
ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela:
ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de
Rita. . . Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as
cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendedo a mão por
cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu,
como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante
foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho
destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de
dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha
um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava
o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer
mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante
fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do
senhor. Vá, vá, tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele,
falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a
escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava
acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua
estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o
céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que
chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram
íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu
também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser
algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa;
parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à
antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as
palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o
estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O
presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as
velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o
com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado;
mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá,
vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e
graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos,
uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas
felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo
olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão
um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo,
interminável.
Daí a ponco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro
do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra,
e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e
foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito
de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada.
Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no
chão.
FIM


Fonte:
ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
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